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Guerra Fria, papa polonês, redemocratização: como estava o mundo no último título argentino na Copa

Empurrada por uma legião apaixonada de torcedores, a Argentina foi eliminada neste sábado (30) da caminhada em busca de seu terceiro título da Copa do Mundo de futebol, em uma dura derrota por 4 a 3 para a França. Presente em grande parte das listas de favoritos à taça, no entanto, a equipe do craque Messi não sabe o que é ser campeã mundial há 32 anos.

 Foto: Clive Rose/ Getty Images
No dia 29 de junho de 1986, data da conquista liderada por Maradona, o atacante do Barcelona, eleito por cinco vezes o melhor do mundo, sequer havia nascido.

Para se ter uma ideia, por exemplo, entre os 23 convocados por Tite para a Seleção Brasileira neste Mundial, apenas cinco jogadores já eram vivos no ano do título argentino: os zagueiros Thiago Silva, Miranda e Geromel, o lateral-esquerdo Filipe Luís e o volante Fernandinho.

Jorge Santos, que tinha 31 anos quando a Argentina conquistou o mundo pela última vez, recorda com saudade dos tempos áureos de sua seleção.

"Lembro de tudo de 1986, porque foi um dos mundiais mais lindos para a Argentina. A jogada de Diego [Maradona] contra a Inglaterra, o gol com a mão e depois os festejos. Lembro-me de tudo, estávamos muito felizes. Imagine você como ficou um povo 'futeboleiro' como a Argentina. Foi uma loucura de sentimento. A chegada dos jogadores à Ezeiza [aeroporto de Buenos Aires] foi algo que não sei se vamos viver novamente", rememorou.

Nem mesmo a Federação Russa, sede desta edição da Copa, existia oficialmente à época do título mundial albiceleste. O país do Leste Europeu ainda fazia parte União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que perdurou oficialmente até 1991.

Reconhecido como um dos importantes marcos para o fim da Guerra Fria, o Tratado INF (Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, na sigla em inglês), só viria a ser assinado pelo então presidente norte-americano, Ronald Reagan, e o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, mais de um ano após a conquista argentina, em dezembro de 1987.

O cenário político de seu país naquela época é, inclusive, para o Oscar Giordano uma das mais saudosas lembranças da época em que os argentinos conquistaram o bicampeonato. Após quatro governos militares seguidos, entre março de 1976 e dezembro de 1983, era eleito na Argentina Ricardo Alfonsín, considerado um dos pilares da redemocratização do país.

"Em 1986 o país estava muito bem, porque o presidente era aquele que, para mim, foi o melhor que a Argentina já teve até hoje. Me lembro perfeitamente da festa que o povo fez. É uma pena que Alfonsín não tenha ido à final, porque não quis correr o risco de ser 'pé frio'. Por via das dúvidas, ficou na Argentina e Maradona levantou a Copa com os ministros argentinos", relembrou.

Ainda reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel quando Maradona levantou a Copa, um dos mais célebres torcedores da Argentina (e do San Lorenzo, clube local) do mundo, o carismático Papa Francisco, sequer imaginava que um dia ocuparia o posto mais alto da Igreja Católica. À época, o papado ainda era João Paulo II. Nascido Karol Józef Wojtyła, o pontífice polonês esteve à frente da Igreja de outubro de 1978 à abril de 2005, mês de seu falecimento.

A distância temporal, no entanto, não impede que os lances geniais de Maradona, Valdano, Ruggeri, Burruchaga, entre outros craques, habitem o inconsciente popular do povo argentino, mesmo entre aqueles que talvez não tivessem idade suficiente para entender a dimensão daquele título.

"Eu tinha cinco anos, por isso não me lembro. Minha primeira recordação é da Copa da Itália, em 1990, quando a Argentina chegou na final. Mas creio que todos temos uma recordação muito viva, porque sempre vemos os mesmos gols, as imagens de Maradona e tudo, mas não me recordo de tê-la visto ao vivo", destacou Diego Rasteletti.

O jejum não se restringe à Copa do Mundo. Se considerarmos apenas a equipe principal, o último título oficial da seleção Argentina foi a Copa América de 93, há 25 anos. Com a seleção olímpica, porém, os sul-americanos levaram a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, após superar a Nigéria na final, por 1 a 0, com gol do meia Angel Di Mária.

Por Pedro Ramos, de Moscou, na Rússia

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